Vorcaro cita R$ 30 milhões ao filme de Lula; PT e Lula negam
Segundo a Veja, ex-banqueiro diz ter liberado dinheiro em troca de acesso a fundos de pensão. Lula e PT negam; PF e PGR dizem que não houve depoimento.

A revista Veja publicou nesta sexta-feira (9/10) um relato atribuído ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, sobre dinheiro que teria sido destinado a um documentário sobre Lula e ao Instituto Lula. Segundo a reportagem, Vorcaro afirma ter liberado cerca de R$ 30 milhões em espécie em troca de acesso a fundos de pensão de servidores federais. Lula, o PT e os demais citados negam. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR) dizem que ele não prestou esse depoimento e que a proposta de delação foi recusada.
O caso chega a 16 dias do segundo turno, marcado para 25 de outubro, e já virou munição dos dois lados da campanha. Por isso vale separar o que está documentado do que é apenas alegação.
O que Vorcaro teria dito sobre o filme de Lula
De acordo com a Veja, o relato diz que o pagamento de cerca de R$ 30 milhões foi combinado com João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, e destinado ao Instituto Lula, dirigido por Paulo Okamotto. O dinheiro bancaria o documentário “Lula”, de 2024, do cineasta Oliver Stone. Haveria ainda um segundo repasse ao instituto, cujo valor não é detalhado.
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Corpo e Alma MotelSeu momento, com toda a discrição.A reportagem traz o trecho de um áudio atribuído a Vorcaro. Nele, o ex-banqueiro diz que o pagamento foi “por fora” e “errado” e afirma: “O filme do Lula eu coloquei acho que até mais”. Não há informação sobre quando a gravação foi feita. Fontes próximas a Vorcaro ouvidas pela CNN Brasil confirmam a existência do áudio, mas dizem que ele não integrou depoimento formal a nenhuma autoridade.
A contrapartida: fundos de pensão e 10% de comissão
Em troca, segundo o relato, Vorcaro teria acesso a recursos de fundos de pensão de estatais. A Veja cita Caixa, Banco do Brasil, Petrobras e Correios. Vaccari teria exigido 10% de tudo o que o Master captasse. A conta apresentada no relato é de R$ 1 bilhão para o PT e R$ 9 bilhões para Vorcaro.
O texto menciona ainda o então ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, o secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, e um operador chamado “Júlio”. A aproximação com o PT teria sido articulada por Augusto Lima, então sócio do Master, com intermediação do senador Jaques Wagner. Mensagens de outubro de 2024 citam uma tentativa de encontro com Lula, sem informar se ele ocorreu. Diálogos de 2025 indicam que Vorcaro não conseguiu captar os recursos.

PF e PGR dizem que não houve depoimento
O ponto central da disputa é a origem do material. Em nota, a PF afirmou que Vorcaro não prestou depoimento com esse teor e que a defesa não entregou anexos com esse conteúdo. A PGR também nega que tenha havido depoimento oral e diz que as tratativas passaram apenas pelos advogados. Segundo a CNN Brasil, a proposta foi rejeitada em junho, depois de a PF recusar duas versões apresentadas pela defesa, por falta de provas e de elementos mínimos que dessem credibilidade ao relato.
Alpha for MenA defesa de Vorcaro repudiou a divulgação de supostos anexos e não confirma o conteúdo. O advogado Daniel Bialski disse que o cliente não prestou novo depoimento à PF sobre o assunto. Segundo a Veja, os advogados afirmaram à PGR ter capturas de tela, mensagens e registros de quem retirou o dinheiro vivo.
O que dizem Lula, o PT e os citados
Procurado pela Veja, Lula afirmou que nunca solicitou nem recebeu vantagem financeira e que não autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome. A campanha do presidente chamou o caso de “farsa com objetivos eleitorais” e disse que vai recorrer à Justiça. O presidente do PT, Edinho Silva, afirmou que o relato nunca foi aceito como delação nem pela PF nem pelo Ministério Público e que não tem base material.
Padilha classificou a gravação como falsa e manipulada, acionou a Advocacia-Geral da União (AGU) para exigir direito de resposta e pediu perícia no áudio. A defesa de Augusto Lima chamou as informações de falsas e sem valor probatório. O Postalis disse que nunca investiu em ativos emitidos pelo Banco Master. Olavo Noleto disse que não vai se manifestar, e a CNN Brasil não registrou resposta de Okamotto e de Vaccari até a última atualização.
Disputa política e pedidos de investigação
Auxiliares do governo e do PT tratam o episódio como um acordo entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro, candidato do PL, para atingir Lula antes do segundo turno. Na quinta-feira (8/10), o grupo Prerrogativas acionou a PF para pedir investigação sobre uma suposta articulação entre Vorcaro e a campanha de Flávio. Nesta sexta, a PF recebeu uma notícia-crime com pedido de providências urgentes sobre os fatos revelados pela Veja. Nenhuma das duas acusações foi comprovada até agora.
O outro lado do Master também está no noticiário. O Intercept divulgou áudios em que Flávio cobra pagamentos de Vorcaro para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, numa negociação de cerca de US$ 24 milhões, o equivalente a R$ 134 milhões, segundo a reportagem. A Folha já tratou do tema em outra matéria. O caso do filme de Lula é distinto e, até aqui, se apoia só no relato de Vorcaro divulgado pela revista.
O que ainda falta esclarecer
Não há processo aberto nem apuração concluída sobre os pagamentos relatados. O áudio não tem data nem circunstâncias confirmadas, e a CNN Brasil informou que fontes próximas a Vorcaro suspeitam de gravação clandestina, por causa de uma distorção no início do arquivo. Enquanto a perícia pedida por Padilha não sai e a PF não se manifesta sobre a nova notícia-crime, o que existe é um relato atribuído ao ex-banqueiro, negado por todos os citados e sem aceitação formal pelas autoridades.
Em Patrocínio, o tema aparece num momento de forte disputa. Quem quiser acompanhar as pesquisas do segundo turno pode ler o que dizem as três pesquisas entre Flávio e Lula. Informações da CNN Brasil, do Metrópoles e da revista Veja.
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