Um documento juntado a um processo na Polícia Federal de Uberlândia (MG) contradiz a versão que o ex-secretário de Esportes de Patrocínio, Mauro Henrique Nogueira, deu em vídeo publicado nas redes sociais. Ele nega, na gravação, ser o autor da denúncia que resultou na investigação contra o prefeito Gustavo Brasileiro. A petição enviada à corporação, porém, o lista como um dos dois noticiantes do caso.
O que mostra o documento
A folha 3 de uma petição assinada pelo advogado Floriano Vieira Luciano (OAB/MG 905541) e endereçada ao delegado-chefe da Polícia Federal em Uberlândia traz, sob o título “NOTICIANTES”, dois nomes: Cleiton Gonçalves Silva e Mauro Henrique Nogueira. Na linguagem jurídica, “noticiante” é quem leva um fato ao conhecimento da autoridade policial para que ela apure. Em outras palavras, é quem formaliza a denúncia.

A Folha de Patrocínio preservou os dados pessoais dos dois citados no documento: CPF, endereço residencial e e-mail foram retirados da imagem. Ficou visível só o que tem interesse público no caso, os nomes e a condição de noticiantes na petição protocolada.


A negativa pública do ex-secretário
Em um vídeo gravado para a Módulo FM e replicado por perfis de notícias de Patrocínio, Nogueira nega publicamente ter qualquer participação na denúncia que abriu a investigação da Polícia Federal contra o prefeito Gustavo Brasileiro. A publicação, que já passou de 18 curtidas e reuniu comentários de apoio ao ex-secretário, tem como manchete a afirmação de que ele “nega ser autor de denúncia contra o prefeito”.
O documento obtido pela reportagem aponta na direção oposta. O nome de Nogueira consta expressamente como um dos noticiantes na petição protocolada junto à Polícia Federal, o mesmo tipo de peça que costuma dar origem a inquéritos como o que atinge hoje a gestão municipal.
Contexto: a investigação contra o prefeito
O caso se soma a uma investigação da Polícia Federal sobre a campanha de 2024 do prefeito Gustavo Brasileiro. O tema já veio a público em entrevista do próprio prefeito à Rádio Comunidade/Difusora 95.3 FM e em nota oficial da Prefeitura de Patrocínio, que nega conhecimento de inquérito ou ação penal em curso, assunto tratado em matéria publicada por este jornal. Segundo o documento agora obtido, a origem da denúncia que motivou a apuração é atribuída a Nogueira e a Cleiton Gonçalves Silva.
Nogueira deixou a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer de Patrocínio para ser pré-candidato a vereador pelo Progressistas (PP) nas eleições municipais. Já ocupou a pasta em mais de um período e também é lembrado como ex-assessor parlamentar do deputado Deiró Marra.
Depoimentos mostram versões conflitantes sobre a origem do vídeo
Além da petição enviada à Polícia Federal, os autos do processo eleitoral nº 0600024-82.2025.6.13.0211, que apura suposta produção de “fake news” na campanha de Patrocínio, reúnem depoimentos a distância de Cleiton Gonçalves Silva, Mauro Henrique Nogueira e Igor José Lopes. Os três relatos, tomados isoladamente pela Justiça Eleitoral, divergem entre si sobre quem sabia o quê e sobre a real origem do vídeo que motivou a denúncia contra o prefeito Gustavo Brasileiro.
A versão de Cleiton Gonçalves Silva
Em termo de depoimento a distância de 29 de outubro de 2025, o ex-secretário de Educação Cleiton Gonçalves Silva afirmou não saber que figura como denunciante na notícia-crime, embora se recorde de ter assinado uma procuração sem lembrar o teor do documento. Segundo seu relato, ele foi contratado por Fernando, apelidado de “Valicão” e já falecido, dono de uma empresa de transporte, para levar Fernando, Igor José Lopes e Edvanei a um cartório em Uberlândia, onde seria lavrada uma ata notarial, e depois até a sede da Polícia Federal. Cleiton diz ter assinado apenas como testemunha do ato no cartório, sem saber o conteúdo do que estava sendo denunciado, e que, no dia da ida à PF, o grupo “voltou sem prestar depoimento”. Ele confirma ter visto “um pouquinho” do vídeo gravado por Igor e afirma que este ainda era funcionário da prefeitura quando o material veio a público.
A versão de Mauro Henrique Nogueira
Em depoimento a distância de 24 de novembro de 2025, o ex-secretário de Esportes e ex-candidato a vereador Mauro Henrique Nogueira, que teve projeção de 1.300 a 1.500 votos e terminou a eleição com cerca de 700, confirma ser um dos noticiantes do processo. Ele relata que Igor José Lopes teria recebido R$ 30 mil de Eduardo Abrunhosa e de um homem identificado como “Dr. Erly” para gravar um vídeo contra ele e contra Wellington, conhecido como “Mamazão”, com promessas de emprego e de uma casa que não teriam se concretizado. Segundo Nogueira, Edvanei “tirou o maior proveito” do episódio, conseguindo um cargo, enquanto Igor “ficou pra trás” e, revoltado com isso, teria procurado a Polícia Federal por conta própria. Nogueira afirma ainda que o vídeo foi produzido de forma profissional, em estúdio, por Bruno Silveira, a mando de Eduardo Abrunhosa, e nega ter conversado diretamente com Cleiton ou com Edvanei sobre o assunto, dizendo que soube dos detalhes por meio do próprio Igor.
A versão de Igor José Lopes
Igor José Lopes, ex-motorista da prefeitura e autor da entrevista original que deu origem ao caso, prestou depoimento com advogado em 11 de agosto de 2025. Ele sustenta que “nada do que falei foi falso” e nega que tenha havido roteiro pronto ou montagem armada para a entrevista. Ao mesmo tempo, admite que os prints usados na ocasião foram tirados de publicações que ele próprio fez em uma rede social, com conteúdo recebido de Mauro Henrique Nogueira. Lopes afirma que deu a entrevista por se sentir pressionado, sem ter recebido promessa de dinheiro ou qualquer vantagem, e diz que quem o ajudava financeiramente, com aluguel e mantimentos, era Edvanei, de quem é inquilino. Ele nega ter viajado a Rio Verde e nega que outras pessoas citadas no processo tenham prometido algo em troca de sua entrevista.
O que ainda falta esclarecer
Até a publicação desta matéria, nem Eduardo Abrunhosa nem o homem identificado como “Dr. Erly” haviam se manifestado publicamente sobre a acusação de que teriam pago por um vídeo contra Mauro Henrique Nogueira e Wellington “Mamazão”. A afirmação consta apenas do depoimento do próprio Nogueira aos autos e não foi, até agora, confirmada de forma independente. A Folha de Patrocínio segue apurando o caso e está aberta a publicar a versão de todos os citados, caso se manifestem.
Assista ao vídeo em que o ex-secretário nega a autoria da denúncia: reel publicado pelo perfil @modulofm no Instagram.
