Durante a convenção nacional do PDT, em Brasília, o presidente Lula voltou a associar adversários políticos à ideia de traição à pátria, repetindo uma frase que já havia rendido uma queixa formal de Flávio Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) um mês antes. “Neste país, antigamente, traidor era enforcado, porque trair a pátria é algo muito grave”, discursou o petista na segunda-feira (20).
O que Lula disse na convenção do PDT
A frase completa, segundo registros do evento, foi: “Nós não temos o direito de perder essas eleições. Neste país, antigamente, traidor era enforcado, porque trair a pátria é algo muito grave. E temos hoje mais de um traidor que vai aos EUA pedir punição ao Brasil.” Embora não tenha citado nomes desta vez, a fala repete o mesmo alvo de uma declaração anterior: senadores e outras figuras da oposição que se reuniram com autoridades americanas nos últimos meses, incluindo Flávio Bolsonaro, que esteve com o presidente Donald Trump.

Não é a primeira vez: o episódio de junho em Catalão
Em junho, num evento em Catalão (GO), Lula já havia usado a mesma comparação de forma mais direta, citando nominalmente a Inconfidência Mineira: “Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser piores do que ele, são vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. São traidores. Por menos do que isso, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, foi enforcado. O que merece os traidores?” Na ocasião, o presidente cometeu um deslize histórico: quem foi enforcado na Inconfidência Mineira foi o próprio Tiradentes, não Joaquim Silvério dos Reis, o delator do movimento, que morreu anos depois sem qualquer punição.

Reação de Flávio Bolsonaro e a queixa no STF
Foi depois da fala de junho que Flávio Bolsonaro protocolou uma representação contra Lula no STF, classificando o discurso como ameaça e incitação a crime, ao entender que o presidente sugeria que ele deveria sofrer o mesmo destino de Tiradentes. Até a repetição da frase na convenção do PDT, o Palácio do Planalto não havia se manifestado publicamente sobre a repercussão do episódio de junho, segundo a CNN Brasil. Não há registro de uma nova ação formal do senador em resposta a esta segunda fala, embora o tema já tenha voltado a circular nas redes sociais horas depois da convenção.
O pano de fundo: tarifas dos EUA contra o Brasil
As falas de Lula sobre “traidores” vêm no contexto da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos: dias depois do encontro de Flávio Bolsonaro com Trump, o governo americano anunciou tarifas de até 25% sobre produtos brasileiros. Para o Planalto, viagens de opositores aos EUA pedindo sanções contra o próprio país seriam equivalentes a uma traição, discurso que o presidente já vinha construindo desde a convenção do PT que oficializou sua candidatura à reeleição. Do outro lado, aliados de Flávio Bolsonaro argumentam que criticar publicamente medidas do governo brasileiro no exterior é uma prática política legítima, não crime.
A repetição da frase “traidor era enforcado” também expõe como o tom da campanha para outubro já esquenta quase três meses antes do primeiro turno. Com Lula recém-confirmado candidato à reeleição e Flávio Bolsonaro ainda avaliando uma candidatura própria ao Senado ou a outros cargos, episódios como esse tendem a se repetir: cada fala mais dura de um lado costuma vir seguida de uma resposta jurídica ou política do outro, um ciclo que já marcou boa parte da década desde 2018. Enquanto o STF não julga a representação apresentada em junho, a discussão sobre onde termina a retórica política e começa a ameaça segue em aberto, e deve continuar rendendo capítulos até as eleições de outubro.
