O preço do café arábica caiu 1,96% nesta quarta-feira (2) e fechou a R$ 1.696,62 a saca de 60 quilos no indicador Cepea/Esalq. É a segunda baixa seguida depois de um mês de agosto que terminou em alta por um motivo desconfortável para quem colheu no Cerrado Mineiro: a bebida desta safra ficou pior do que se esperava.

A leitura é do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, divulgada nesta quarta. Segundo o centro, as chuvas de junho e julho nas principais regiões produtoras pegaram a lavoura em plena colheita e comprometeram o grão. A safra 2026/27 ficou grande em volume e fraca em qualidade.

Grãos de café arábica cru antes da torra, tipo de lote que define o preço do café arábica pago ao produtor
Grãos de café arábica cru: peneira e bebida definem quanto o produtor recebe por saca. Foto: Fernando Rebêlo/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Por que agosto fechou em alta com safra grande

O Brasil colheu muito café neste ano e, ainda assim, o mercado subiu ao longo de agosto. O Cepea aponta dois motivos que caminharam juntos.

Um deles é a qualidade. Com a chuva caindo em cima da colheita, cresceu a fatia de café classificado como bebida inferior e de peneira menor. Café fino, de grão graúdo e xícara limpa, ficou escasso justamente no ano em que houve mais café no total. Quem compra bebida boa passou a disputar um estoque menor.

O outro é o estoque certificado na bolsa de Nova York. Os volumes registrados na ICE Futures seguem baixos, e estoque apertado lá fora costuma segurar a cotação por aqui, porque o comprador internacional tem menos margem para esperar preço melhor.

O que derrubou o preço do café arábica nesta semana

A virada do mês desfez parte dessa alta. Em 27 de agosto o indicador já havia recuado 3,22%. No dia 28 caiu mais 0,81%, subiu 1,15% no dia 31 e fechou agosto a R$ 1.748,44. Em 1º de setembro perdeu 1,02% e foi a R$ 1.730,56. Nesta quarta veio a queda de 1,96% que levou o preço do café arábica ao patamar atual.

Com a colheita praticamente encerrada no país, o café que estava na lavoura passou a chegar ao mercado. Mais oferta disponível para venda imediata pressiona a cotação, mesmo quando o pano de fundo continua sendo o de um produto com defeito acima da média.

No Cerrado, quase um terço da safra saiu do chão

O relatório semanal da Expocacer, a cooperativa dos cafeicultores do Cerrado com sede em Patrocínio, mostra o tamanho do estrago. Até 28 de agosto, 93% do arábica da região já havia sido colhido, e 77% desse volume estava beneficiado, com rendimento médio de 490 litros por saca de 60 quilos.

A qualidade aparece em outro número do relatório: cerca de 30% do café desta safra caiu no chão por causa das chuvas, e pouco mais da metade desse volume, 54%, tinha sido recolhido até o fim de agosto. Café de varrição pega umidade e terra, fermenta com mais facilidade e chega ao beneficiamento com defeito. A catação média na região passou de 20%, ou seja, uma parcela grande do que entra na máquina precisa ser separada antes de virar produto vendável.

A cooperativa projeta 2,859 milhões de sacas na sua área de abrangência, com alta de quase 40% sobre a safra passada. Volume não falta. Falta café capaz de brigar pelo prêmio de bebida fina.

O que muda para o produtor de Patrocínio

Patrocínio é o município que mais produz café no Brasil, com 64.225 toneladas registradas pelo IBGE em 2024. Numa safra assim, o resultado da lavoura se decide na separação dos lotes, não no total colhido.

Quem manteve o café de árvore longe do café de chão, secou com cuidado e conseguiu fechar lotes de bebida limpa está diante de um mercado com pouca oferta desse perfil. Quem misturou tudo tende a negociar com desconto, porque o comprador vai encontrar o mesmo defeito em várias fazendas do Cerrado ao mesmo tempo. O preço do café arábica publicado todo dia é uma média, e a distância entre um lote e outro não cabe nela.

Há ainda o que observar na lavoura. A florada que se formou no fim de agosto define a safra do ano que vem, e a região enfrentou dias de ar muito seco antes da entrada da frente fria. Florada irregular agora significa maturação desencontrada na colheita seguinte, que é o que mais dificulta separar café bom de café ruim.

Por ora, o preço do café arábica continua sensível ao ritmo de chegada do café novo ao mercado e ao comportamento dos estoques em Nova York, com o clima sobre a florada pesando no horizonte mais longo. O acompanhamento diário do indicador pode ser consultado no site do Cepea/Esalq, e o andamento da colheita na região aparece no boletim semanal da cooperativa.


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Retrato oficial do prefeito de Patrocínio, Gustavo Brasileiro
Gustavo Brasileiro, prefeito de Patrocínio. Foto: Prefeitura de Patrocínio/Divulgação

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