O Inep divulgou nesta semana o Ideb 2025, e a rede municipal de Patrocínio registrou nota 6,4 nos anos iniciais do Ensino Fundamental. O número já circula entre educadores e famílias da cidade, e uma comparação específica tem aparecido nas conversas: o resultado de 2025 contra o de 2021, ano em que a rede alcançou 7,0 em plena pandemia. Só que tratar o Ideb da pandemia em Patrocínio como um parâmetro comparável ao de hoje é um erro que o próprio Inep e o Conselho Nacional de Educação (CNE) já alertaram para não cometer.

O que mudou no Saeb de 2021

O Ideb é calculado a partir do Saeb, a prova aplicada a cada dois anos. Em 2021, a aplicação aconteceu em condições fora do padrão. O Inep precisou baixar o piso mínimo de participação de 80% para 50% dos alunos matriculados, porque boa parte das redes de ensino do país não bateria o critério original em plena pandemia. Mesmo com a régua mais baixa, a participação nacional caiu de 80,9% em 2019 para 70,7% em 2021, uma base de alunos menor e menos representativa da rede como um todo.

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Ideb da pandemia em Patrocínio: gráfico mostra queda na participação do Saeb e alta na aprovação em 2021
Participação e aprovação no Saeb, Brasil, 2019 x 2021. Fonte: Inep/Ideb.

Soma-se a isso o Parecer CNE nº 19/2020, que autorizou a fusão dos anos letivos de 2020 e 2021 com aprovação automática. A taxa de aprovação nacional nos anos finais saltou de 88,6% para 95,2%, mesmo com as notas de português e matemática caindo naquele ciclo. Como o Ideb combina desempenho na prova com taxa de aprovação, esse componente de fluxo ficou artificialmente inflado em 2021 em todo o país, não só em Patrocínio. A então presidente do CNE, Maria Helena Guimarães de Castro, chegou a declarar publicamente que a comparabilidade do Ideb 2021 com anos anteriores “deve ser evitada” por causa dessas mudanças nas regras de aprovação.

Há ainda um problema de amostragem discutido pelo próprio Inep: alunos sem acesso a internet ou computador, geralmente os mais vulneráveis e com desempenho mais baixo, tiveram mais dificuldade para participar da prova remota ou híbrida. A equipe técnica do Inep alertou, em abril de 2021, que essa exclusão “pode gerar viés de interpretação sobre a condição real do processo de ensino-aprendizagem” nas redes que tiveram participação mais baixa. Na prática, os quase 30% de alunos que ficaram fora da prova em 2021 não eram uma amostra aleatória: tendiam a ser justamente os estudantes com menos acesso a recursos, o grupo que historicamente tira notas mais baixas.

Uma queda que também é padrão nacional

A nota técnica do próprio Inep sobre o Ideb 2023 já mostrava esse efeito represado: o indicador nacional dos anos iniciais só se sustentou porque o componente de fluxo subiu, enquanto a nota de aprendizagem real (o desempenho puro na prova) caiu na comparação com 2019. Neste ciclo de 2025, o MEC está oferecendo apoio técnico a 442 municípios brasileiros com Ideb baixo nos anos iniciais, prova de que a queda de aprendizagem pós-pandemia bateu em centenas de redes ao mesmo tempo.

O Ideb da pandemia em Patrocínio: o que os números mostram desde 2005

Os dados oficiais do Inep para a rede municipal de Patrocínio, anos iniciais, mostram a curva completa do Ideb da pandemia em Patrocínio e ajudam a colocar o debate em perspectiva:

Ideb da pandemia em Patrocínio: curva histórica de 2005 a 2025 mostra pico em 2017 e 2019
Ideb de Patrocínio, rede municipal, anos iniciais, série 2005-2025. Fonte: Inep/Ideb.
AnoIdeb (rede municipal)
20054,6
20075,1
20096,0
20116,5
20136,5
20157,0
20177,4
20197,4
20217,0
20236,6
20256,4

O detalhe que a discussão pública costuma deixar de fora: o pico da série foi em 2017 e 2019, com nota 7,4 em condições normais de aplicação, dois ciclos antes da pandemia. O resultado de 2021, tratado por parte do debate local como um feito isolado, já era 0,4 ponto mais baixo do que o ciclo anterior à pandemia. A queda de Patrocínio, portanto, não começou entre 2023 e 2025: ela aparece já na comparação entre o último Saeb normal (2019) e o primeiro Saeb em condições de pandemia (2021), e segue em 2023 e 2025.

Como Patrocínio se compara a Minas Gerais e ao Brasil

O Inep também divulgou os resultados agregados de Minas Gerais e do Brasil para 2025, o que permite colocar Patrocínio no contexto certo. Na rede pública, o Ideb dos anos iniciais subiu de 5,7 para 6,1 no Brasil entre 2023 e 2025, e de 6,1 para 6,4 em Minas Gerais no mesmo período. Patrocínio seguiu na direção contrária: caiu de 6,6 para 6,4.

Ideb da pandemia em Patrocínio comparado a Minas Gerais e Brasil, anos iniciais, 2023 e 2025
Ideb rede pública/municipal, anos iniciais: Brasil, Minas Gerais e Patrocínio, 2023 e 2025. Fonte: Inep/Ideb.

Esse é um dado que pesa contra a leitura de que o Ideb da pandemia em Patrocínio explica sozinho a queda atual: enquanto o país e o estado recuperaram parte do terreno perdido no ciclo anterior, a rede municipal seguiu perdendo pontos. Isso não invalida o argumento sobre a comparabilidade de 2021, mas mostra que o resultado de 2025 merece, sim, atenção da gestão atual, mesmo que a régua correta para medir esse retrocesso não seja o pico artificial da pandemia, e sim a tendência de queda que já vinha desde 2019.

Como interpretar o resultado sem cair no erro de comparação

Entender o Ideb da pandemia em Patrocínio dessa forma não significa que o resultado de 6,4 não mereça atenção da gestão atual, nem apaga o esforço de qualquer equipe que tenha trabalhado durante a pandemia. Significa que usar 2021 como régua de “resultado histórico” e 2025 como prova isolada de retrocesso ignora o que o próprio Inep documentou sobre as condições excepcionais daquele ciclo, ao mesmo tempo em que reconhece que a comparação com Brasil e Minas Gerais aponta para um problema real que precisa de resposta local, não só de contexto nacional. É essa leitura mais completa do Ideb da pandemia em Patrocínio, e não a comparação isolada entre dois anos, que deveria orientar o debate local.

Para quem quer acompanhar a nota de cada escola da rede em 2025, a Folha já publicou o levantamento completo escola por escola e a comparação histórica por unidade de ensino. Os microdados oficiais usados nesta apuração estão disponíveis no portal do Ideb no site do Inep.


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Retrato oficial do prefeito de Patrocínio, Gustavo Brasileiro
Gustavo Brasileiro, prefeito de Patrocínio. Foto: Prefeitura de Patrocínio/Divulgação

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