Por que um contrato de locação mensal fixa, pago todo mês com dinheiro público, gera de vez em quando uma nota fiscal que mais que dobra o valor combinado, sem uma linha de explicação? É a pergunta que os dados oficiais da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) não respondem sozinhos, e que a deputada estadual Maria Clara Marra (PSDB) até hoje não respondeu ao eleitor. Levantamento da Folha de Patrocínio identificou as sobretaxas da Vip Loc: cobranças extras, lançadas por fora da mensalidade contratada, que em pelo menos dois meses do mandato mais que dobraram o custo do aluguel do carro oficial pago com a verba indenizatória.
O que os dados mostram sobre as sobretaxas da Vip Loc
A Folha já havia mostrado, em reportagem anterior, que a mensalidade paga à Vip Loc Veículos saltou de R$ 9.000 para R$ 13.700 a partir de abril de 2026 (leia a matéria completa aqui). Mas aquele primeiro levantamento não tinha esmiuçado o comportamento mês a mês da locadora antes desse salto. E o que aparece ali incomoda: em pelo menos sete meses do mandato, iniciado em 2023, o valor pago à Vip Loc ficou acima da mensalidade combinada de R$ 9.000, sem nenhum novo contrato assinado prevendo reajuste. Sobrou pagando mais, sem que ninguém tenha explicado por quê.

Os dois casos mais extremos concentram as maiores sobretaxas da Vip Loc de todo o mandato, e merecem ser lidos devagar. Em novembro de 2023, a nota fiscal emitida pela locadora somou R$ 22.060,00, mais que o dobro do valor mensal contratado à época. Um único mês de aluguel de carro custou ao contribuinte mais do que dois meses e meio de salário mínimo somados. Três meses depois, em fevereiro de 2024, nova cobrança de R$ 14.750,00 repete o padrão. Foi excesso de quilometragem? Diária extra por viagem fora do previsto? Multa repassada? O cidadão que financia essa conta não tem como saber, porque nenhuma dessas notas vem acompanhada de justificativa.
Sem explicação oficial para as sobretaxas
O Portal da Transparência da ALMG disponibiliza apenas o valor, a data e o número da nota fiscal de cada pagamento. Não exige da deputada nenhuma justificativa detalhada de km rodado, diária extra ou motivo da cobrança acima do contrato, e é exatamente essa lacuna que permite que sobretaxas de mais de R$ 20 mil passem sem nenhum tipo de prestação de contas qualificada. Tecnicamente, o gasto está dentro das regras frouxas da Casa. Mas regra frouxa não é sinônimo de gasto justificado. As sobretaxas da Vip Loc deveriam, no mínimo, vir acompanhadas de um recibo detalhado disponível ao público. Por que não vêm? Quem decidiu que bastava lançar o valor e seguir em frente, sem satisfações?
Nos 33 meses de pagamentos à Vip Loc Veículos identificados na verba indenizatória, o padrão de sobretaxa está longe de ser um deslize isolado. Considerando os valores registrados a partir de 2024, ano em que a mensalidade base ficou estável em R$ 9.000 antes do reajuste de 2026, praticamente um em cada quatro meses teve pagamento acima do contratado. Um em quatro. Se fosse exceção rara, seria compreensível. Repetido nessa frequência, vira padrão de gasto que a deputada nunca precisou explicar a ninguém.
O reajuste para R$ 13.700 não fecha a conta
A partir de abril de 2026, a mensalidade contratada com a Vip Loc passou oficialmente para R$ 13.700, um aumento de 52% sobre o valor anterior, conforme já apurado pela Folha de Patrocínio. O novo valor aparece nos gráficos acima em laranja, e mesmo ele, já mais caro, ficou abaixo do que a deputada pagou pontualmente em novembro de 2023 e fevereiro de 2024. Isso desmonta qualquer leitura de que as sobretaxas eram pequenos ajustes pontuais: eram picos de gasto que já superavam, na prática, o valor que só se tornaria a nova mensalidade fixa três anos depois. Se o carro já custava isso em alguns meses, por que reajustar oficialmente só agora, e por que o eleitor nunca soube dessas cobranças anteriores?
A Vip Loc Veículos Ltda. é, segundo o próprio portal da ALMG, a maior fornecedora individual da verba indenizatória de Maria Clara Marra em todo o mandato, com R$ 341.910,06 recebidos em 45 notas fiscais entre 2023 e 2026. Mais do que assessoria jurídica, mais do que combustível, mais do que locação de imóvel, somados individualmente. Um único fornecedor de aluguel de carro concentra mais dinheiro público do que qualquer outro gasto do mandato. Isso, sozinho, já justificaria explicação detalhada. Com sobretaxas não explicadas em cima, a pergunta que fica é: quem fiscaliza essa conta antes de ela virar notícia?
Reportagem em série sobre a verba indenizatória
Esta é a primeira de uma série de reportagens da Folha de Patrocínio baseadas em levantamento completo, mês a mês, de toda a verba indenizatória de Maria Clara Marra disponível no Portal da Transparência da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, órgão oficial responsável pela publicação desses dados. A Folha de Patrocínio vai pedir posicionamento da assessoria da deputada sobre as sobretaxas da Vip Loc identificadas neste levantamento. Até lá, a pergunta segue sem resposta: por que o mandato de Maria Clara Marra pagou, mais de uma vez, o dobro do contratado por um carro, sem prestar contas do motivo?
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