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Nikolas Ferreira pergunta onde estavam os artistas

Em vídeo, o deputado cobra o silêncio dos artistas sobre ataques à fé cristã. A Folha conferiu os casos: o desfile da Gaviões da Fiel, por exemplo, é de 2019.

O deputado federal Nikolas Ferreira, de braços cruzados e com a bandeira do Brasil no ombro, em foto de arquivo
O deputado federal Nikolas Ferreira, de braços cruzados e com a bandeira do Brasil no ombro, em foto de arquivo

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou nesta terça-feira (13), no Instagram, um vídeo de pouco mais de dois minutos em que repete uma pergunta aos artistas: onde estavam quando símbolos cristãos viraram alvo de humor, desfile e protesto. Ele não cita nenhum nome, mas diz que parte de quem agora se apresenta como defensor do cristianismo odeia o que a fé representa.

A fala chega a 12 dias do segundo turno, marcado para 25 de outubro, entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT). Nikolas Ferreira é aliado de Flávio e foi o deputado federal mais votado do país no primeiro turno. A Folha reproduz abaixo o que ele diz, sempre atribuído a ele, e confere o que dá para conferir sobre os episódios que ele lista.

O que Nikolas Ferreira diz aos artistas

Gravado dentro de um carro, com legenda queimada na tela, o vídeo abre com uma sequência de perguntas que começam sempre do mesmo jeito: “onde estavam os artistas”. Ele cita o especial de Natal do Porta dos Fundos, exibido pela Netflix, em que Jesus aparece como homossexual; um desfile de escola de samba em que Jesus seria derrotado por Lúcifer, que ele atribui à Gaviões da Fiel; um homem preso por quebrar a imagem de Nosso Senhor em uma igreja de Minas Gerais; um vereador do PT que invadiu uma igreja durante uma missa; santos católicos usados em uma campanha de preservativos na Parada LGBT; uma encenação de crucificação na 19ª Parada LGBT de São Paulo; o desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou Lula e, segundo ele, zombou da família brasileira em uma lata de conserva; e um deputado que teria reduzido mães a “pessoas que gestam”.

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Na segunda parte, o tom muda. O deputado diz que promover uma guerra religiosa para obter proveito político é baixo, até para os padrões do PT. Afirma que os artistas sempre trataram os cristãos como caricatura e que muitos dos que agora se dizem defensores do cristianismo odeiam tudo o que ele representa: negar a si mesmo, lutar contra o pecado, obedecer a Deus. Também diz que esse grupo só vai à igreja de quatro em quatro anos.

Em seguida, Nikolas Ferreira responde à própria pergunta. “Eu não sei, mas não era ao nosso lado”, diz sobre onde estavam os artistas. Segundo ele, os cristãos estavam nas igrejas, na escola dominical, na vigília e nas células, e nenhum político ou eleição tem poder de redenção. Mas, para o deputado, o cristão que é cidadão na hora de pagar imposto também é cidadão na hora de declarar o voto. O vídeo termina com ironia: parabéns pela tentativa, tentem de novo na próxima.

Nikolas Ferreira gravando o vídeo dentro de um carro, em quadro da publicação de terça-feira (13)
Nikolas Ferreira no vídeo publicado nesta terça-feira (13). Foto: Reprodução

O que se sabe sobre os casos citados

O especial do Porta dos Fundos, “A Primeira Tentação de Cristo”, foi lançado pela Netflix em dezembro de 2019 e provocou forte reação de grupos religiosos no país.

O desfile com Jesus e o diabo foi da Gaviões da Fiel no Carnaval de São Paulo de 2019, com enredo sobre a história do tabaco, e não neste ano. A escola afirmou que a cena era uma alegoria do embate entre o bem e o mal e que ela terminava com a vitória de Jesus. A Justiça paulista rejeitou ações contra a agremiação: em 2020, uma juíza negou o pedido de R$ 5 milhões em danos morais feito por uma entidade cristã, e outro processo, de retratação, foi extinto com base em parecer do Ministério Público de São Paulo, que não viu ofensa à fé cristã.

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A encenação de crucificação foi na 19ª Parada LGBT de São Paulo, em 2015. Já o desfile da Acadêmicos de Niterói foi no Carnaval de 2026, no Rio de Janeiro, com homenagem a Lula no samba-enredo. A ala “neoconservadores em conserva” levou dançarinos vestidos de latas de alimentos, com rótulos de “família tradicional”. Na época, Nikolas Ferreira anunciou uma representação no Ministério Público do Rio de Janeiro contra o presidente da escola, por intolerância religiosa. A escola justificou a ala como crítica a grupos que votam contra a maioria das pautas defendidas por Lula.

O vereador do PT é, ao que tudo indica, Renato Freitas, de Curitiba (PR), que liderou em fevereiro de 2022 um protesto por justiça pela morte do congolês Moïse Kabagambe que entrou na Igreja do Rosário dos Pretos. As versões divergem: ele disse que entrou depois do fim da missa, e críticos afirmam que havia fiéis esperando o início da celebração. A Arquidiocese de Curitiba criticou o ato.

Sobre a imagem quebrada em Minas, a Folha não conseguiu identificar o caso a que ele se refere. O episódio mais recente é o de Resende Costa, no Campo das Vertentes, em que um jovem de 20 anos foi preso em flagrante por intolerância religiosa, acusado de destruir uma imagem sacra do século 18 na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. A campanha de preservativos com santos na Parada LGBT também não foi localizada.

Quanto ao deputado que teria reduzido mães a “pessoas que gestam”, Nikolas Ferreira não diz o nome, e a Folha não identificou o parlamentar. A expressão está no centro da polêmica sobre a nova Caderneta da Gestante, do Ministério da Saúde, que usa termos como “pessoa que gesta”. Deputados de oposição apresentaram projetos para barrar as mudanças, e o ministério defende que a atualização amplia o acesso à informação.

Onde o vídeo de Nikolas Ferreira entra na campanha

O tema religioso já aparece em outros momentos da reta final. No dia 5, depois do primeiro turno, o deputado publicou outro vídeo, no qual nomeia 16 políticos como derrotados, e a Folha confrontou cada fala com a apuração. No domingo (11), um perfil associou, sem provas, a apresentação de um artista no ato da Avenida Paulista a Satanás, em uma acusação que a Folha não confirmou. E na segunda-feira (12), o deputado mostrou nos stories uma visita de um cantor à sua casa, relatada em bastidor.

O primeiro turno terminou com Flávio com 47,03% dos votos válidos e Lula com 45,16%, segundo o TSE. A série histórica das segundas voltas mostra que, desde 1989, o líder do primeiro turno sempre venceu, mas com margem maior do que a de agora.

O que a Folha não localizou

Até a publicação, a Folha não localizou manifestação de artistas, do PT ou da campanha de Lula sobre o vídeo. O deputado também não aponta a qual ação da campanha petista se refere ao falar em guerra religiosa. O espaço segue aberto para resposta.

Com informações da publicação do deputado no Instagram, em 13 de outubro de 2026, e de decisões da Justiça de São Paulo. Foto de arquivo: Pablo Gomes Almeida (CC BY-SA 4.0).


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