Magnoli vê esquerda culpar o povo pela derrota de Lula
Em coluna no Globo, o sociólogo diz que justificativas de parte da esquerda livram o PT de culpa. É opinião, e a Folha não achou resposta da campanha de Lula.

O sociólogo Demétrio Magnoli publicou nesta segunda-feira (12), no jornal O Globo, uma coluna em que sustenta que as explicações dadas por parte da esquerda para a derrota de Lula no primeiro turno têm algo em comum: livrar o presidente e o PT de qualquer responsabilidade. A tese é opinião do autor, e a Folha a apresenta como tal. O texto sai a duas semanas do segundo turno, com Lula atrás de Flávio Bolsonaro (PL) em quatro das cinco pesquisas registradas no TSE entre 8 e 10 de outubro.
O que a coluna diz sobre a derrota de Lula
Com o título “A culpa pela derrota de Lula no 1º turno é do povo”, a coluna de Magnoli, publicada na edição para assinantes, começa listando os suspeitos que, segundo ele, circulam na campanha do presidente e na militância petista: o marqueteiro Sidônio Palmeira, a primeira-dama Janja, o ministro do Supremo Alexandre de Moraes, o imperialismo americano, a imprensa e, em tom de ironia, até o mordomo. Para o colunista, a teoria mais duradoura sobre a derrota de Lula é outra, a de que a responsabilidade seria da própria população.
No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%, segundo a apuração do TSE. Os dois voltam a se enfrentar em 25 de outubro, e a Folha reuniu o quadro das pesquisas do segundo turno, instituto por instituto.
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Magnoli lembra que, depois de uma derrota do PT em São Paulo, a filósofa Marilena Chauí acusou a classe média de ser fascista. O autor acha a acusação estranha, porque o partido, em outras épocas, venceu várias vezes nas grandes cidades do Sudeste, inclusive com o voto majoritário de bairros de classe média. Ele diz que, desde 2018, a esquerda desenvolveu uma obsessão com o “pobre de direita” e que militantes tendem a achar que a régua deles, a ideologia, é a de todos. Na leitura do colunista, o voto muda conforme as circunstâncias: eleitores de Obama votaram depois em Trump, e os pobres que escolheram Lula podem escolher Bolsonaro.
A coluna discute também uma entrevista da socióloga Esther Solano, dada antes do primeiro turno para divulgar o livro “O ódio como política”, que ela organizou. Segundo Magnoli, Solano afirmou que o Brasil tem uma sociedade muito racista e muito machista, citou os casos de feminicídio e de mortes de pessoas transgênero e disse que o país se construiu sobre uma base de ódio ao diferente. O colunista vê nessa fala o exemplo de um diagnóstico que, na opinião dele, percorre boa parte da esquerda. Se fosse verdade, escreve, Lula não teria chance, e restaria aos progressistas mudar de país.

Para o autor, o raciocínio identitário é, no fundo, fatalista e derrotista, e produz o efeito contrário ao que busca. Ele argumenta que o declínio eleitoral dos progressistas no Ocidente reflete, em larga medida, o cansaço com discursos de culpa feitos do alto de uma suposta superioridade moral.
O argumento dos 75% e a comparação com Dilma
O ponto central da coluna é uma pergunta. Desde 2003, diz Magnoli, os progressistas governaram o Brasil durante 75% do tempo. Como, então, uma sociedade descrita como corrompida, violenta e odienta teria feito essa escolha de forma predominante? E, se os governos de Lula e do PT tiveram o papel que o próprio presidente costuma reivindicar na construção do país atual, o legado deles seria um país depravado? A Folha refez a conta com os mandatos de Lula e de Dilma Rousseff, de 2003 a 2016 e desde 2023, e chegou a um valor próximo, perto de 73%.
Alpha for MenO colunista conclui que as justificativas ensaiadas para a derrota de Lula, do marqueteiro ao país tomado pelo pecado, servem para eximir Lula, o PT e as políticas do governo de qualquer responsabilidade. Ele compara o movimento à lenda do golpe das elites, criada depois do impeachment de Dilma, que, na avaliação dele, impediu uma revisão crítica das políticas que levaram à depressão econômica. O texto termina com um alerta: quebrar o espelho, escreve, é o caminho para que até um Flávio chegue ao Planalto.
O que a Folha não conseguiu confirmar sobre a derrota de Lula
Coluna é texto de opinião, e a Folha não endossa nem contesta as conclusões do autor. Magnoli não indica quem formulou a maior parte das hipóteses que lista, com as exceções de Chauí e de Solano, e a Folha não verificou, por conta própria, quem na campanha ou no partido defendeu cada uma. Até a publicação desta reportagem, a Folha não localizou resposta da campanha de Lula, do PT, de Chauí ou de Solano à coluna. A fala de Solano também é descrita pelo colunista, e o contexto completo da entrevista não consta do texto.
A coluna trata só do lado de Lula. Ela não analisa as explicações da campanha de Flávio Bolsonaro para o resultado do primeiro turno, e esta reportagem não substitui essa análise.
Como está a disputa a duas semanas do segundo turno
Segundo o quadro de pesquisas da Folha, Flávio aparece à frente em quatro dos cinco levantamentos registrados no TSE, com vantagem de 4 a 6 pontos nos votos válidos. Lula lidera em uma, a da Vox Brasil, por 1,8 ponto. Na pesquisa DataTrends, Flávio tem 53,1% e Lula, 46,9%. Pesquisa mostra o que os entrevistados disseram em dias determinados, e a urna pode dizer outra coisa.
O clima digital também esquentou. A Folha mostrou como o deputado Jeffrey Chiquini atacou o canal Exército do Lula e como o ato pró-Lula na Avenida Paulista, no domingo (11), virou munição para os dois lados.
Em Patrocínio, o eleitor também volta às urnas em 25 de outubro. A Folha reuniu locais, horário e ônibus do segundo turno e mostrou como cada escola da cidade votou no primeiro turno. Se a campanha de Lula, o PT ou os citados responderem à coluna, a reportagem será atualizada.
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